Fábio Henrique
Ferreira de Albuquerque
Se é um facto que cada vez torna-se menos discutível o vasto leque de
destinatários da Contabilidade, e bem assim a sua utilidade, parece-nos
no entanto menos consensual a noção de que a nossa ciência não pode, e
nem deve, privilegiar determinados grupos de interessados nas
informações por esta prestada, sob pena de enviesamentos marcadamente
prejudiciais à sua credibilidade.
Este parece ser,
no entanto, o entendimento do Financial Accounting Standards Board (FASB),
cuja estrutura conceptual encontra-se dispersa em vários documentos, os
vários “Statements of Financial Accounting Concepts” (SFAC), designados
como Declarações de Conceitos da Contabilidade Financeira, que acolhe
como utilizadores principais os investidores e credores, argumentando
por uma maior utilidade da informação no que toca às decisões de
investimento e financiamento.
O Framework for
the Preparation and Presentation of Financial Statements”, oficialmente
traduzida como Estrutura Conceptual para a Apresentação e Preparação das
Demonstrações Financeiras, aprovada pelo International Accounting
Standards Board (IASB), actualmente em processo de convergência com o
idêntico documento do FASB, ao que tudo indica acolherá o mesmo
preceito.
A medicina, ao
estudar certa forma de combate a uma qualquer doença, terá obviamente os
olhos voltados, de imediato, para aqueles que desse mal amargam. Mas
fá-lo-á por estes como por outros que do mesmo infortúnio possam vir a
sofrer.
Uma qualquer
ciência, com o seu objecto específico e um determinado círculo de
interessados directos nos benefícios que advenham das suas conquistas,
terá sempre os seus proveitos repartidos conjuntamente por toda a
humanidade.
Ainda para aquelas
que têm a seu cargo (como objecto portanto, e estamos a pensar,
designadamente, em certos ramos das ciências biológicas) um grupo
específico de indivíduos, não nos parece configurado, ao menos de modo
obrigatório, pontuais exemplos de destinatários privilegiados da
informação; mas, sim, e objectivamente teremos, elementos prioritários
de estudo e análise investigativa.
O Prof. Lopes de Sá,
referência constante nos nossos trabalhos pela riqueza intelectual e
lucidez extrema que nos oferece, vem, por outras razões, justificativas
da Contabilidade no seio das ciências sociais, corroborar o que atrás
deixamos, adiante transcrito:
“O homem, o homem
em sociedade, o património do homem a serviço dele, o património do
homem a serviço da sociedade parecem ser fortes conexões que alimentam
uma justa classificação dos estudos contábeis no campo do social.”
E bem oportuno
parece-nos relembrar a classificação da Contabilidade nessa área do
conhecimento humano – as ciências sociais – para crermos o quão frágil à
sua evolução será, para qualquer uma das ciências ali enquadradas, o
estabelecimento de hierarquias, pois disto se trata, dos diversos
destinatários da informação.
A verdade é que os
mesmos que assim procedem, insistem também em não qualificar a
Contabilidade como a ciência do estudo dos fenómenos patrimoniais, e
sim, unicamente como um sistema de informação de gestão; conceito que
consideramos falível desde o princípio, mas de cuja discussão não nos
ocuparemos no presente trabalho.
Referências Bibliográficas:
FASB (Financial
Accounting Standards Board) (2000), Statement of Financial Accounting
Concepts n.º 7 – Using Cash Flow Information and Present Value in
Accounting Measurements, Connecticut: FASB.
FASB (Financial
Accounting Standards Board) (1985), Statement of Financial Accounting
Concepts n.º 6 – Elements of Financial Statements: a replacement of FASB
Concepts Statement No. 3 (incorporating an amendment of FASB Concepts
Statement No. 2), Connecticut: FASB.
FASB (Financial
Accounting Standards Board) (1984), Statement of Financial Accounting
Concepts n.º 5 – Recognition and Measurement in Financial Statements of
Business Enterprises, Connecticut: FASB.
FASB (Financial
Accounting Standards Board) (1980-b), Statement of Financial Accounting
Concepts n.º 4 – Objectives of Financial Reporting by Nonbusiness
Organizations, Connecticut: FASB.
FASB (Financial
Accounting Standards Board) (1980-a), Statement of Financial Accounting
Concepts n.º 2 – Qualitative Characteristics of Accounting Information,
Connecticut: FASB.
FASB (Financial
Accounting Standards Board) (1978), Statement of Financial Accounting
Concepts n.º 1 – Objectives of Financial Reporting by Business
Enterprises,
Connecticut: FASB
IASB. (International
Accounting Standards Board) (1989): Framework for the Preparation and
Presentation of Financial Statements, Londres.
SÁ, António Lopes
de. Teoria da contabilidade. 4º ed. São Paulo, Atlas, 2006.
Santos, Luís Lima.
Contabilidade Internacional. 1ª ed. Porto, Vida Económica, 2006.
Autor:
Fábio Henrique Ferreira de Albuquerque
- Bacharel em Contabilidade e Administração e licenciado em
Contabilidade pelo ISCAL (Instituto Superior de Contabilidade e
Administração de Lisboa);
- Mestrando em Auditoria pelo mesmo instituto;
- Graduando em Ciências Contábeis pela UFPE (Universidade Federal de
Pernambuco);
- Inscrito na Câmara dos Técnicos Oficiais de Contas em Portugal, sob o
nº 84659;
- Membro da Associação Científica Internacional Neopatrimonialista