Definição
do valor cobrado pelo escritório
depende do perfil do cliente
No
início da década de 90, os profissionais e empresas da área da
contabilidade despetaram para uma questão que permanecia latente: qual era o
impacto dos custos na hora da definição dos preços cobrados pelos serviços
contábeis? Em uma época em que o governo federal buscava conter a
hiper-inflação, não havia uma base técnica para as empresas calcularem os
valores exatos que incidiam nos serviços. Por isso, as entidades
representativas do setor buscaram corrigir essa deficiência com estudos que
pudessem definir valores de referência para profissionais e empresas.
Reconhecida como um avanço na área contábil, hoje a aplicação das tabelas
de referência é questionada, principalmente pelo fato de que a maioria dos
clientes não dispõe de recursos para o pagamento dos valores propostos nas
tabelas. A
Tabela Referencial de Honorários elaborada pelo Sescon-RS em 1990, em
conformidade com resolução do Conselho Federal de Contabilidade, funciona
como um auxiliar para as empresas de assessoria contábil calcularem os preços
dos serviços.
O
presidente do Sescon-RS, Luiz Carlos Bohn, diz que a tabela é resultado de um
estudo criterioso, através de pesquisa técnica, por parte do sindicato, com
a finalidade de ser fonte de consulta para o empresário da contabilidade na
aplicação e execução de seus serviços. Agora, quem pensa que o cálculo
é fácil, Bohn afirma que é o oposto. "Temos que calcular o reajuste
dos diversos componentes do serviço contábil, como tecnologia, salários,
material de expediente, energia elétrica e telefonia", salienta.
A
partir desse cálculo, os técnicos do Sescon-RS chegam a um valor denominado
Padrão Unitário da Contabilidade (CC), reajustado no mês de março de cada
ano. Em 2005, o valor era de R$ 57,04, e neste ano é de R$ 61,12. Com relação
aos salários, o contador contratado hoje por uma empresa para ser o
profissional responsável pelo setor tem o piso salarial de R$ 1.117,60 por 40
horas semanais. Para o auxiliar contábil, o piso é de R$ 422,40. No último
dissídio da categoria, em novembro de 2005, o reajuste foi de 5,42%.
Para
os profissionais liberais na área da contabilidade, a Federação dos
Contabilistas do Rio Grande do Sul (Federacon) aprovou, em 1991, a Tabela de
Honorários Mínimos Profissionais. Os honorários da tabela sofrem alteração
mensal de acordo com o Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), de acordo
com o presidente do Sindicato dos Contabilistas de Porto Alegre, Carlos
Alexandre Randazo. A Unidade de Honorário do Contabilista (UHC) foi
reajustada em abril de 2006 para R$ 28,96.
A
Federacon entende que o oferecimento de serviços profissionais a preços
inferiores aos da tabela configura aviltamento de honorários e concorrência
desleal, de acordo com o Código de Ética dos Contabilistas. "Não
existe uma obrigatoriedade, e sim uma negociação entre as partes",
explica Randazo. Como a tabela é uma referência, foi desenvolvida com base
na média do perfil das empresas e clientes. "A tabela está dimensionada
para um cliente de médio porte. Por esse motivo, muitos entendem que a tabela
é inaplicável. Mas devem analisar antes o perfil do cliente", explica.
A
concorrência entre as assessorias contábeis é menor no atendimento aos
grandes clientes, que podem arcar mais facilmente com os custos do trabalho
contábil. "O custo da contabilidade para um cliente que emite apenas uma
nota terá um impacto grande sobre o valor contratado. Já uma empresa com
faturamento de R$ 100 milhões ao ano, o valor pago se reverte mais em
investimento do que em custo", diz Randazo.
Como forma de enfrentar o mercado em expansão, os profissionais da
contabilidade devem procurar se diferenciar, principalmente em alguma área da
contabilidade, como auditoria e perícia. "Estrutura, qualificação
profissional e know-how são preponderantes para manter a fidelidade do
cliente", salienta.
Falta
às organizações contábeis um modelo formal de precificação
Para
determinar os preços dos serviços a serem executados, os empresários contábeis
consideram a complexidade da empresa-cliente, além de tomar como base de
orientação do preço mínimo, os preços praticados no mercado pelas outras
empresas contábeis ou as tabelas propostas pelos sindicatos e associações
profissionais. Em um estudo desenvolvido pelo núcleo de pesquisas em
administração da Universidade de Fortaleza (Unifor), foram citados pelos
profissionais entrevistados alguns fatores que mais influenciam na determinação
dos preços, isto é, dos honorários contábeis: o faturamento, com 73,8% de
indicações; o número de funcionários, com 97,6% de indicações; o tipo de
tributação, com 95,2% de indicações; e a atividade econômica da
empresa-cliente, com 71,4% de indicações.
Ainda
segundo o estudo, as organizações contábeis não possuem um modelo formal
de precificação tendo, assim, dificuldades em conferir os preços aos seus
serviços. Muitas empresas contábeis se utilizam da experiência dos proprietários
para definir os honorários.
Segundo
os especialistas, os principais componentes do valor total dos serviços
prestados na empresa contábil são os salários e encargos dos profissionais
que executam a escrituração contábil, fiscal, de pessoal e jurídico e seus
auxiliares; a remuneração dos sócios; os serviços auxiliares, que são os
salários e encargos dos demais colaboradores que não podem ser alocados a
determinado departamento; os custos indiretos, e as reservas.
O
presidente do Sescon-RS, Luiz Carlos Bohn, explica que o impacto dos encargos
salariais e dos avanços tecnológicos vem crescendo, o que gera um aumento
nos valores cobrados. Para Bohn, é justamente por isso que a tabela serve
apenas como um apoio aos empresários.
O
Conselho Federal de Contabilidade, em sua resolução n.º 803/96, define que
o valor dos serviços contábil deve ser fixado previamente, e de preferência
por escrito, considerando os seguintes elementos: a relevância, o vulto, a
complexidade e a dificuldade do serviço a executar; o tempo que será
consumido para a realização do trabalho; a possibilidade de ficar impedido
da realização de outros serviços; o resultado lícito favorável que, para
o contratante, advirá com o serviço prestado; a peculiaridade de tratar-se
de cliente eventual, habitual ou permanente, além do local em que o serviço
será prestado.
Cálculo
dos preços passa pela valorização profissional
O
desafio dos contadores e técnicos em contabilidade na definição dos preços
que são cobrados pelos serviços passa pela valorização profissional.
"O profissional tem que valorizar sua prerrogativa de ser o operador da
contabilidade e suas aplicação para a gestão empresarial", enfatiza o
vice-presidente de Fiscalização do Conselho Regional de Contabilidade
(CRC-RS), Roberto Augusto Ayub.
Para
o contador, a formação e atualização profissional é um componente
expressivo e elevado no custo dos serviços contábeis. "É um
investimento de caráter permanente", explica. Mesmo assim, com exceção
da auditoria e perícia, que são privativas de bacharéis, não existem
diferenças nos serviços profissionais prestados entre contadores e técnicos
da contabilidade. Cada profissional procura desenvolver e utilizar um
diferencial de mercado para oferecer ao cliente.
A
definição do preço de honorários é um assunto polêmico, na opinião do
contador José Luiz Lenz. "Não há uma regra específica ou pré-determinada.
Existem algumas entidades de classe que possuem tabelas para orientar os
profissionais no momento da precificação dos serviços contábeis",
afirma.
Neste
sentido, Ayub reforça que as tabelas de honorários são somente sugestões,
sem caráter impositivo. O reajuste dos honorários deve ser estabelecido no
contrato de prestação de serviços contábeis, que é obrigatório. Se este
reajuste não for suficiente para cobrir os custos, o profissional pode
demonstrar ao cliente, através da metodologia de precificação, o aumento de
seus custos que tanto pode ser operacional ou causado por aumento dos serviços
solicitados. "A precificação é uma metodologia, um roteiro simples e
objetivo, sugerido aos profissionais para o levantamento de dados e informações
para a montagem de um perfil da empresa-cliente com o objetivo de determinar
os custos da realização dos serviços contábeis e, por conseqüência, o
valor dos honorários", diz Ayub. A precificação serve também para
demonstrar ao cliente a razão do valor dos honorários, sendo por isso, um
instrumento de transparência na relação do cliente com o profissional.
Para
Lenz, falta aos profissionais da contabilidade a formação disciplinar específica
para negociação de honorários, saber colocar os custos na ponta do lápis e
calcular também o valor para estabelecer e manter uma empresa de serviços
contábeis. Lenz defende também que a precificação depende da visão
empreendedora de cada profissional. "Se formos considerar somente a visão
empresarial, não poderia haver diferenciação de preços cobrados pelos
bacharéis e técnicos", avalia.
O
contador sócio da Strategya Contabilidade de Carazinho, Orguim da Rocha,
enfatiza que é preciso considerar que o Novo Código Civil acrescentou novas
responsabilidades ao profissional da contabilidade, que pode ser considerado
responsável solidário por atos praticados pela administração. "Neste
caso, como precificar esta responsabilidade?", questiona ele.
A
prestação de serviços envolve, por um lado, uma parte tangível que é a
realização da parte operacional, como lançamentos contábeis, cálculos,
emissão de guias, alterações e contratos, e de outro lado, uma parte intangível
que é o conhecimento para a realização das tarefas. Nesta parte reside,
segundo Rocha, a grande dificuldade em mensurar, quantificar e precificar o
conhecimento. "São questões que os profissionais da área contábil terão
que começar a discutir. O Conselho Regional de Contabilidade, preocupado com
a atualização, qualificação e condições de trabalho dos profissionais,
vem colocando este tema em debate, nos diversos seminários regionais
promovidos pela entidade em conjunto com os sindicatos e associações de
contabilistas", afirma o contador Orgim da Rocha.
Vicente Darde

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